sábado, 6 de fevereiro de 2010


BALADA DE UM PALHAÇO

Comentário de Antonio Carlos Brunet

O Grupo de Teatro Art & Fatos, de Goiânia, sob a direção de Danilo Alencar demonstra, de maneira veemente, a incontestável atualidade de Plínio Marcos, com a montagem de Balada de um Palhaço, último texto deste inquieto dramaturgo, autor de inúmeros clássicos do moderno teatro brasileiro, tais como Navalha na Carne, Dois Perdidos Numa Noite Suja, Barrela, O Abajur Lilás, Jornada de um Imbecil até o Entendimento, e outros tantos.

Em Balada de um Palhaço, Plínio traz à cena a discussão sobre ética profissional, no caso específico desenvolvida a partir do conflito vivido pelo palhaço Bobo Plin, em busca de sua ‘alma’ perdida, fato este que, segundo o próprio, o torna sem graça e robotizado, a repetir à exaustão suas gags, que não mais lhes dão prazer, apenas para satisfação da ganância e do estabilishment de seu patrão, o dono do circo, explorador voraz e terrível, o sádico Menelão, que o obriga, para garantir a sobrevivência do circo (e por tabela a sua), a trabalhar como garoto-propaganda da loja do ‘Gordão’, aumentando a crise sem precedentes que já atormenta o conflitado palhaço (o conflito do próprio autor, frente à tentação da televisão, que batia inexorável à sua porta).

Apoiado neste argumento, Plínio coloca-nos - a todos, como se diz -, dentro do mesmo saco. A discussão que se estabelece em cena transcende o fato de sermos palhaços ou atores, englobando aí, qualquer categoria e qualquer profissional em crise com suas relações e ações de trabalho. O ser humano é revirado do avesso, destripado, colocado em cheque, tomografado em suas entranhas, com o único e salutar intuito de faze-lo refletir sobre sua condição.

O espetáculo de Danilo Alencar & Cia. é carinhosamente cruel. Trabalha, em todos os seus departamentos, com os opostos. Há a evidente contraposição dos palhaços: Bobo Plin é suave, fraco, pequenino, delicado, atônito (lembrando muito o Chaplin desencantado de Luzes da Ribalta); e, Menelão é grosseiro, forte, grande, tosco, frio e calculista, que percebe no momento de fragilidade de seu antagonista, a oportunidade para reiterar o exercício de seu pífio poder, posição esta conseguida através da exploração econômica que exerce sobre seu subalterno. E, é dele, do palhaço Bobo Plin e de seu sucesso (ou fracasso) que vem a manutenção do status de Menelão. Há sempre uma linha tênue estendida entre os dois personagens, sempre tensa, preste a arrebentar, mas que, por instantes, surpreendentemente relaxa, para que tanto eles, os personagens, quanto nós, espectadores possamos respirar. Deveras interessante o fato de Menelão, também ser mostrado como palhaço, ficando, na verdade a seu cargo, a maioria das brincadeiras desenvolvidas em cena. Isso faz com que a cada golpe, a cada reviravolta, fique mais evidente sua calhordice (Plínio é mestre neste jogo de poder a dois, digamos assim, vide o que se estabelece entre Neuza Sueli e Vado de Navalha na Carne, e Paco e Tonho, de Dois Perdidos Numa Noite Suja).

Visualmente, a encenação é impecável. O cenário é mágico, poético, aconchegante, sintetizado na cena onde é representado através da maquete, dando-nos a impressão de estarmos inseridos numa caixinha de música gigantesca. Os figurinos são excelentes: bem realizados e concebidos de acordo com a unidade da direção, ressaltando as características de cada personagem. A trilha sonora sublinha precisamente a ação, criando climas diversos, conduzindo-nos à alegria desbragada do circo, assim como à tensão interna dos personagens em seus momentos críticos eflexivos e ao melodrama pungente, inerente ao universo em exposição (volto a citar Chaplin, com seus ‘Smiles’ e ‘Limelights’, verdadeiras obras-primas do cancioneiro melodramático universal, o que ele assume em sua obra, sem o menor pudor). Creio estar a iluminação um pouco aquém dos outros itens descritos e, curiosamente, ela assim resulta, por ser excessiva, comprovando que nem sempre quantidade é qualidade.

Os dois atores – Bruno Peixoto e Edson de Oliveira – são excelentes. Abraçam seus personagens de maneira carinhosa, com uma afetividade e uma ternura que transbordam a cada gesto, a cada olhar. Há verdadeira entrega ao seu ofício e, conseqüentemente, verdadeiro resultado deste desafio. Observa-se, feliz, a composição detalhada das figuras em seus gestuais característicos e de difícil execução. Uma verdadeira lição de humildade e disponibilidade frente ao fazer teatral. Pode-se dizer que, felizmente, ‘alma’ é o que não lhes falta.

Penso ser de extrema necessidade um olhar mais atento ao final do espetáculo, pois, na medida que Menelão é o palhaço mais ativo - vamos colocar assim -, ele consegue a empatia imediata do espectador. E, creio ser esta identificação perigosa, reforçada pelo fato de ele chorar ao ser abandonado por Bobo Plin, que vai embora sem que se saiba se ele (Bobo) está feliz por ver-se livre de seu explorador, ou infeliz por não ver perspectivas futuras fora de seu habitat. Até o fim, portanto, as forças opostas se debatem.

O espetáculo, enfim, consegue, ainda, resgatar ao palhaço a sua condição mais específica, frente a uma enxurrada de ‘palhaçinhos sem alma’ que como posseiros se estabeleceram em nossos palcos e picadeiros, nas últimas décadas; e, de maneira delicada, carinhosa e de extremo bom-gosto (o que pode parecer contraditório ao autor, mas não o é) trazer de volta à cena a discussão sobre a condição humana, sem perder as raízes populares tão caras a Plínio.

Estamos, portanto, colocados diante de uma obra maior - tanto por seus valores estéticos espetaculares, quanto pelo valor que o impacto de seu texto ainda suscita, levantando questões bastante pertinentes ao homem contemporâneo - e, se por alguns momentos parece chover no molhado, finalizo citando Gilberto Gil, que diz: “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”.



Respeitável Público de Uberlândia/MG

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